
Febraban Tech 2026: Tendências
agosto 25, 2026
Quatro inteligências para ler o que mudou no setor financeiro
setembro 2, 2026A 34ª edição do estudo anual da Febraban, conduzido pela Deloitte, teve seus dados completos apresentados no Febraban Tech 2026, em São Paulo. O retrato é de um setor que já digitalizou o canal e agora tenta digitalizar a própria decisão — com R$ 50,4 bilhões de orçamento tecnológico e uma agenda que converge dados, IA, nuvem e cibersegurança.
E essa é uma virada de página: o orçamento de tecnologia dos bancos deve chegar a R$ 50,4 bilhões em 2026, alta de 8% sobre o ano anterior, além de um crescimento acumulado de 58% em cinco anos. É o custo de operar um negócio que se relaciona com o cliente virtualmente, na prática.
O canal digital deixou de ser canal e virou o banco
O sistema bancário brasileiro processou 240,8 bilhões de transações em 2025, com 83% ocorrendo em canais digitais. O mobile banking representou 78% – em cinco anos, o mobile cresceu 169%, chegando a 187,5 bilhões de operações.
O indicador mais revelador, porém, não é o volume. É o hábito. Os chamados “heavy users”, clientes que concentram mais de 80% de suas transações em um único canal, já respondem por 76% da base digital.
Marshall McLuhan já argumentava, em 1964, que todo meio funciona como uma extensão do corpo humano. Hoje, é difícil encontrar ilustração mais literal dessa tese do que um cliente que abre o aplicativo do banco todos os dias, e uma empresa que o faz quase duas vezes ao dia, como apontou o estudo.
A leitura estratégica é direta: o aplicativo não é mais um ponto de contato entre outros. Ele é o balcão, a agência e o gerente. Qualquer atrito nessa interface, uma jornada que exige três telas a mais, deixa de ser experiência de usuário e vira problema de receita.
Da IA que responde à IA que executa
O tema central do Febraban Tech 2026, “Agentes inteligentes, liderança humana”, não foi escolhido por acaso. Depois de anos usando IA principalmente em análise de risco, atendimento e detecção de fraude, os bancos passaram a testar sistemas capazes de encadear tarefas, consultar bases distintas e tomar decisões operacionais sob supervisão humana.
Os números acompanham o discurso. Os investimentos em IA somaram R$ 826 milhões em 2025*m, alta de 39% o ano anterior. Para 2026, os bancos projetam cerca de R$ 3 bilhões em IA, Analytics e Big Data*l (+8%) e aproximadamente R$ 3,9 bilhões em migração para a nuvem (+30%) — quase R$ 7 bilhões concentrados em duas frentes que, no fundo, são a mesma: colocar dados em condição de serem usados em tempo real. IA generativa e cloud figuram entre as prioridades de 84% das instituições.
Onde os agentes já estão rodando, segundo o estudo
- Automação de processos internos: 76%
- Atendimento via chatbots e voicebots: 71%
- Geração de relatórios: 71%
- Conteúdos de marketing: 53%
- Assistentes virtuais de apoio às equipes: 53%
Quanto ao valor percebido, 92% dos bancos apontam a velocidade na execução de tarefas rotineiras como principal benefício da IA; 52% citam menor tempo de resposta, redução de custos e eficiência na análise de dados; e 48% identificam ganhos na detecção de fraudes.
Vale notar o que esses percentuais dizem.. O topo da lista é eficiência operacional, não geração de receita. A IA bancária brasileira, hoje, é sobretudo uma tecnologia de margem. A promessa de personalização e de novos modelos de negócio aparece na estratégia, mas ainda não domina o inventário de casos em produção. O próximo salto?
A inteligência humana é o estudo
Talvez o achado menos glamouroso e mais decisivo do estudo esteja nas pessoas. Os bancos devem investir R$ 29,4 milhões em capacitação em IA e GenAI em 2026, alta de 31%, e 70% já mantêm estratégias formais de requalificação profissional.
A demanda segue aquecida: 42% das instituições pretendem ampliar seus quadros de TI, com crescimento médio de 22%. Hoje, cerca de 11% dos profissionais dos bancos atuam em tecnologia.
Há um subtexto relevante aqui. Um orçamento de R$ 50 bilhões é replicável por qualquer concorrente com balanço para tanto. Um quadro técnico capaz de operar agentes autônomos com governança, não.
Cibersegurança: prioridade unânime e assento no conselho
A segurança digital é o único tema do estudo com adesão total: 100% das instituições a classificam como prioridade alta ou média. E a governança acompanhou. 58% dos bancos já contam com pelo menos um especialista em cibersegurança no conselho de administração.
Hoje, 88% mantêm integração consolidada entre cibersegurança, prevenção a fraudes e prevenção à lavagem de dinheiro.
O dado mais prospectivo: 71% dos bancos consideram a computação quântica de alta relevância no curto ou médio prazo junto com criptografia e segurança pós-quântica no topo da lista de preocupações. É o setor começando a planejar a substituição de sua base criptográfica antes que a ameaça exista.
Open Finance e novas receitas: da promessa ao uso
Depois de anos de discussão regulatória, o Open Finance aparece na pesquisa com uso concreto: 92% dos bancos o enxergam como oportunidade de acesso a dados financeiros. Outros 85% o utilizam para aprimorar campanhas e 69% para ganhar competitividade nas ofertas.
CONCLUSÃO
No fim, o retrato é de um setor que já resolveu a infraestrutura e agora disputa outra coisa. A base digital está pronta, o orçamento é grande e replicável por qualquer concorrente com balanço para tanto. O que não se compra com R$ 50 bilhões é um quadro técnico capaz de operar agentes autônomos com governança, nem a confiança do cliente em delegar decisões de crédito e pagamento a um sistema.
Hoje a IA bancária brasileira ainda é, majoritariamente, uma tecnologia de margem: automatiza backoffice, acelera atendimento, corta custo. O olhar para os próximos dois anos não será para a quantidade de casos de uso cada banco terá, mas para quais deles aparecerão na linha de receita. E mais: quantos o cliente aceitará usar sem supervisão humana no meio do caminho.
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Fontes: Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 (34ª edição, ano-base 2025), realizada pela Deloitte para a Federação Brasileira de Bancos; apresentações e cobertura do Febraban Tech 2026, realizado entre 24 e 26 de agosto de 2026, no Distrito Anhembi, em São Paulo.*




